Voltar
06 ago. 2015
Notícias

Quando a arte e a ciência se encontram

Hoje, 14 de março, é lembrado o Dia Nacional da Poesia, data que homenageia Castro Alves, o poeta dos escravos. Para comemorar, você acompanha a seguir um pouco sobre a relação da arte e ciência e também percorre pelo campo da poesia digital.

por Camila de Pauli

A relação entre a ciência e a arte é profunda na música, na literatura ou nas artes plásticas. Em 1948, Cartola e Carlos Cachaça escreveram versos em homenagem a dois grandes nomes brasileiros: O artista Pedro Américo e o físico César Lattes. O titulo da música é “Ciência e Arte” e nos últimos versos, Cartola canta: “Cientistas tu tens e tens cultura/ E neste rude poema destes pobres vates. Há sábios como Pedro Américo e Cesar Lattes”.

Diversas outras composições foram feitas para homenagear cientistas brasileiros. Em 1988, o Grupo Rumo, liderado por Paulo Tatit, escreveu uma canção destinada às crianças chamada “A incrível história do dr. Augusto Ruschi, o naturalista e os sapos venenosos”. Entre os versos, Tatit descreve o perfil do cientista: Ele era naturalista porque gostava da natureza, estudava a natureza, entendia os bichos, as matas, as formigas, os passarinhos… e defendia a natureza”!

Na mesma linha, a literatura também recorre a temas científicos. É comum encontrar nos livros de poesias temas como a máquina do mundo, o tempo, os astros, a matéria, a bomba atômica e a física quântica. Aos escrever os seus versos, Augusto dos Anjos incorporou à sua obra termos científicos. Em “A aeronave”, ele diz: “Cindindo a vastidão do Azul profundo/ Sulcando o espaço/ devassando a terra/ A aeronave que um mistério encerra/ Vai pelo espaço acompanhando o mundo… Cheia da luz do cintilar de um astro/ Deixa ver na fulgência do seu rastro/ A trajetória augusta da Ciência”.

Fatos históricos ligados à ciência também servem de inspiração. Quem não se emociona até hoje ao ler ou ver algo sobre a bomba atômica que arrasou algumas cidades japonesas durante a segunda guerra mundial? Artistas que presenciaram o fato, através das notícias radiofônicas, não esquecem da manhã do dia seis de agosto de 1945, em Hiroshima, Japão. Foi neste dia que um avião estadunidense B-29, chamado Enola Gay, iniciou os combates atômicos e detonou a primeira bomba atômica chamada “Little Boy”, com 12,500 toneladas de TNT. Só em Hiroshima, cerca de 140 mil pessoas morreram. Outras 68 cidades japonesas também foram bombardeadas. Em
Nagasaki, aproximadamente 80 mil pessoas perderam a vida durante os ataques, sem contar os que morreram em decorrência da radiação ao longo dos anos.
A notícia do impacto da bomba atômica sensibilizou músicos e poetas. Em 1946, Vinícius de Moraes escreveu “A bomba Atômica”. O poeta inicia a obra com a fórmula de equivalência massa-energia, usada no desenvolvimento da bomba atômica. No texto ele diz: “e=mc2/ Einstein/ Deusa, visão dos céus que me domina/ tu que és mulher e nada mais!/ Pomba tonta, bomba atômica…./ Tristeza, consolação/ Flor puríssima do urânio/ Desabrochada no chão/ Da cor pálida do helium/ E odor de rádium fatal/ Loelia mineral carnívora/ Radiosa rosa radical./

Quase 30 anos depois, em 1973, o grupo Secos e Molhados gravou a comovente, um verdadeiro grito pacifista, “Rosa de Hiroshima”, outro poema de Vinícius de Moraes sobre o mesmo tema. A obra foi escrita por Vinícius de Moraes e musicada brilhantemente por Gerson Conrad.

Contribuição técnica da ciência à arte no século XXI: A e-poesia
As formas de lidar com as questões contemporâneas estão cada vez mais tecnológicas. Se alguém contasse a qualquer pessoa na década de 60 que em quarenta anos as pessoas seriam “amigas” ou “namorariam” pela internet, provavelmente ela não acreditaria.
E se até as relações mais íntimas como o amor e a amizade podem ser hoje virtuais, porque não a poesia? E não é que ela já existe e há tempos? Lá se vão 53 anos de muita história.

Antes de ser digital, a poesia passou por um longo processo. Até estar nas telas dos computadores, ela foi visual. De acordo com o professor universitário, pós-doutorando no IEL (Instituto de Estudos da Linguagem) da Unicamp, bolsista da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo) e autor de “Poesia Digital: Teoria, História, Antologias”, em entrevista à Funpar, Jorge Luiz Antonio, a relação entre poesia e tecnologia começa com poema “O ovo”, de Símias de Rodes, feito três séculos antes de Cristo. O texto fala do nascimento de Eros, composto em forma de ovo, onde texto e forma se completam.

O tempo passou e outras experiências foram feitas. Para explicar o surgimento da poesia digital é necessário, também, recorrer à uma pequena parte da história da computação. Entre meados da década de 40 e fim da década de 50 os computadores eram gigantes, nada práticos e precisavam de quilômetros de fios para funcionar. A partir de 1959, entraram no mercado os computadores mais rápidos, menores, de custo mais baixo o que tornou o produto mais popular. A revolução aconteceu na substituiu as válvulas eletrônicas por transístores e os fios de ligação por circuitos impressos.

E foi neste contexto que surgiram as primeiras experiências da poesia digital, criada no mesmo ano, pelo alemão Theo Lutz, a partir das cem primeiras palavras de “O Castelo”, de Franz Kafka. Segundo ele, Lutz criou novos textos usando um programa de computador que produzia outras frases.

Quase dez anos depois, se reproduziam as experiências brasileiras. Para o pesquisador Jorge Luiz Antonio o marco inicial foi dado em 1968, quando Pedro Xisto, poeta brasileiro, e Leslie Gabriel Mezei, húngaro radicado no Canadá, pioneiro da arte digital naquele país, fizeram um trabalho em parceria: Pedro Xisto apresentou seu poema “Babel”, de 1965, e Leslie Gabriel Mezei fez variações com programas computacionais. Esse material fez parte do Festival de Artes Multimídias da Universidade de Ontário. Porém, outros pesquisadores indicam o início do desdobramento da poesia digital a partir de 1972, com a obra Le Tombeau de Mallarmé, de Erthos Albino de Souza.

E assim foi e continua até hoje. A diferença é que todo esse processo acompanhou o desenvolvimento tecnológico, muito mais moderno e interativo. Do papel para os projetores repletos de palavras, formas, imagens e sons. E quem diria… Hoje os “tecno-arte-poetas” pensam e trabalham assim. O pesquisador Jorge Luiz Antonio diz que quem quer fazer poesia digital precisa ir além do hábito de escrever com papel e caneta. “Para ser um tecno-arte-poeta é preciso ter espírito criativo, de uma interferência criativa nas tecnologias e no design para que a função predominante dessas linguagens se torne poética”.

Alguém se arrisca a ser um tecno-arte-poeta?

Referências:
Museu do computador. Disponível em museudocomputador.com.br.
ANTONIO, Jorge Luiz. Entrevista por e-mail, concedida em 12 de março de 2012.
ANTONIO, Jorge Luiz. Tecno-arte-poesia no Brasil. O Eixo e a Roda. Revista de Literatura Brasileira. Belo Horizonte, MG, UFMG, v. 20, n. 2, p. 109-129, 2011. Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/poslit/08_publicacoes_pgs/Eixo%20e%20a%20Roda%2020,%20n.2/06-Jorge%20Luiz%20Antonio.pdf>.
ANTONIO, Jorge Luiz; KASSAB, Álvaro Luiz. A poesia eletrônica, quem diria, faz 50 anos. Jornal da Unicamp, Campinas, SP, n. 440, p. 5-7, 7 a 13 set. 2009. Disponível em: <http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/setembro2009/ju440_pag05.php#> e em versão .pdf: <http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/setembro2009/ju440pdf/Pag05.pdf>. Acesso em: 8 set. 2009.

PARA SABER MAIS
O encontro da arte e da ciência

Poesias sobre ciência:
Luís de Camões – Os Lusíadas – Canto X – 80/90 e Canto VI
Antonio Gedeão – A máquina do mundo
Marco Lucchesi – A quarta Parede e Modo Inaugural
João Cabral de Melo Neto – Habitar o tempo e Tecendo a manhã
Murilo Mendes – Estudo para o Caos
Manuel Bandeira – Satélite e A onda
Ricardo Kubrusly – Kepleriana
Murilo Mendes – A inicial
Augusto dos Anjos – A idéia, As cismas do Destino e A aeronave
Cecília Meireles – Máquina breve
André Carneiro – Ondas Quânticas
Francisco de Melo Franco – Reino da Estupidez
Carlos Saldanha – Os filosofos
Haroldo de Campos – Hieróglifo para Mario Schoenberg

Poesias e textos sobre Poesia digital
http://www.vispo.com/misc/BrazilianDigitalPoetry.htm

Músicas que falam da ciência
Secos e molhados – Rosa de Hiroshima (Gerson Conrad e Vinicius de Moraes)
Gilberto Gil – Quanta, A ciência em si (com Arnaldo Antunes), Pela Internet, Átimo de pó (com Carlos Rennó) e Cérebro eletrônico.
Cartola e Carlos Cachaça – Ciência e a Arte
Raul Seixas – O Segredo do Universo
Enredo da Unidos da Tijuca (2004) – O sonho da criação e a criação do sonho: a arte da ciência no tempo do impossível
Jorge Mautner e Nelson Jacobina – Cinco bombas atômicas
Autoria desconhecida – Vacina obrigatória
Pelo telefone – Donga (primeiro samba gravado, em 1917)
Braguinha – Bebê de Proveta
Linda Batista – Marcha da Penicilina
Tom Jobim e Marino Pinto – Aula de matemática
Caetano Veloso – Livro e Oração ao tempo
Albertino Miranda, Arlindo Matilde e Nelson Trigueiro – Micróbio do samba
Jackson do Pandeiro – Micróbio do frevo (composição de Genival Macedo)
Marisa Monte – A Alma e a Matéria (composição de Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes)